O Livro dos Espíritos  

.LUCIANO DOS ANJOS FILHO

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PARTE I

Um  livro,   por  si  só,  é capaz de trazer em seu conteúdo idéias e conceitos que podem atiçar as massas,  dependendo do local e época em que é lançado. Contudo, um impresso que se destina a reconduzir a humanidade aos trilhos do cristianismo puro, clarificar ensinamentos distribuídos por Jesus e deixar novos conhecimentos, trazendo a libertação filosófico-religiosa, tem que ser o Livro. Sendo o livro, é necessário que o ambiente no qual ele será depositado a fim de frutificar venha a ser preparado de acordo com o potencial do seu florescer.
Duzentos anos antes da Codificação da doutrina espírita, exposta em O Livro dos Espíritos, por Allan Kardec, já se iniciara as profundas mudanças no pensamento humano sobre as questões do Mundo e o Criador. Abriam-se assim as portas para novas perspectivas do conhecimento, preparando o terreno para que, mais tarde, alguém revestido de bom senso e raciocínio lógico pudesse perscrutar e indagar a existência do mundo dos espíritos, resgatando para o século XIX, e daí por diante, o conceito do espiritocentrismo. Assim sendo, o mundo dos encarnados nunca mais seria o mesmo. As consciências já tão cansadas das proibições, claustros físicos e mentais e hipocrisias da teologia católica, entrariam em contato com o Consolador prometido há quase dois mil anos por Jesus. A Terceira Revelação estaria por se fazer presente através dos esforços de Allan Kardec, na obra O Livro dos Espíritos.

A história do conhecimento humano que precede O Livro dos Espíritos revela o quanto o Alto investiu nos espíritos encarnados, considerando os atos nobres e também os beligerantes, para que o cenário fosse perfeito a fim de que a humanidade pudesse alcançar a sabedoria e o amor, asas imprescindíveis capazes de reconduzir os espíritos caídos ao estado purificado.

O século XVII contou com a presença de vários personagens que abalariam o velho mundo aristotélico.

Francis Bancon (1561-1656), René Descartes (1596-1650) e Isaac Newton (1642-1717) são daqueles que mais se destacariam. Através de seus pensamentos haveria a ruptura da concepção secular da ciência subordinada e hierarquizada da teologia católica, amparada nos conceitos de Aristóteles.

Bacon, filósofo inglês, defende o valor das experiências de laboratório e o método indutivo, pelo qual o conhecimento seria adquirido através da observação de muitos dados para se alcançar uma verdade universal.

Descartes, físico, matemático e filósofo francês, coloca em xeque todas as opiniões tradicionais e até então aceitas. Para ele, tudo seria considerado duvidoso, a não ser o "penso, logo existo". Uma vez adotando essa linha de raciocínio e, para não se ver influenciado pelo mundo externo em suas conclusões, adota o método matemático da dedução pura. Tal metodologia consistia em iniciar o raciocínio a partir de verdades ou axiomas simples e evidentes por si mesmos, como por exemplo os da geometria. O filósofo francês defendia que, através dessa conduta de pensamento, se chegaria a conclusões específicas. A tese de Descartes propunha aceitar somente aquilo que a razão pudesse compreender e finalmente fosse demonstrado.

Newton, físico, matemático e filósofo inglês, inicia seus estudos a partir dos conceitos legados por Galileu e Kepler. Conseqüentemente, as concepções medievais de um Universo guiado por milagres e pelo sobrenatural seriam paulatinamente postas de lado. Através da matemática, Newton demonstra que as leis físicas aplicáveis à Terra também se aplicariam ao Universo. Com sua teoria gravitacional, o seu conceito de massa, força, inércia, movimento, tempo e estudos sobre a luz, Newton se tornaria o arquétipo da física moderna, erguendo a plataforma para que mais tarde a física quântica se desenvolvesse.

Através, principalmente, desses visionários a Revolução Científica do século XVII é feita, rompendo com as concepções aristotélicas, tão defendidas pela Igreja.

O cosmo hermético e hierarquizado seria substituído pelo Universo aberto e infinito que, por conseguinte, seria regido por suas próprias leis. Enfim, o Universo estaria em movimento, e tudo que se encontrasse em movimento seria sinônimo de progresso. Assim sendo, o passo seguinte da humanidade seria inevitável: a aceitação de um Universo em progresso contínuo e regido por suas leis, promovendo uma nova conscientização no ser humano, que também estaria em eterna mutação, progredindo, avançando. Grandes conquistas materiais, para um mundo material, emergiriam. Enfim, "todo" o conhecimento sufocado por séculos mediante o terror psicológico e a punição física que o catolicismo impusera não mais poderia ser contido. O êmbolo do progresso injetaria novos conhecimentos, a Europa sofreria profundas transformações no campo econômico, político e ideológico. A terraplenagem existencial estava em curso para a vinda do Consolador prometido. Contudo, o mundo ainda teria que sofrer abalos mais sérios para o devido preparo nas esferas mentais da sociedade encarnada. A ruptura do deturpado pensamento religioso para alcançar o novo teria que ser também extraordinária, como foi a Revolução Científica. O ser humano, entretanto, mais uma vez não alçaria vôo com as asas da evolução intelectual e moral. O século XVII passaria com suas conquistas, mas o Consolador não poderia ainda se fazer presente. Novos acontecimentos, pois, estariam por vir. O terreno fértil das almas reencarnadas já havia sido rasgado para a semeadura da libertação; seria agora semeado com as verdades inabaláveis do autêntico cristianismo, que se materializaria através do Consolador.

O século XVIII foi o divisor de águas entre o "velho" mundo e o "novo" mundo. A humanidade, estimulada pelas novas concepções da Revolução Científica do século XVII, começaria a transpirar contestação. Mas... já estaria preparada para o descortinar do Grande Conhecimento, que responderia às sempre e atualíssimas questões: Que sou? Donde vim? Para onde vou? Infelizmente, não. A humanidade, como a História nos revela, caminha lentamente. O Altíssimo aguardaria mais algumas décadas para o amadurecimento dos espíritos em queda e, aí sim, teríamos a continuidade da retirada do véu da ignorância transcendente.

Os movimentos políticos e econômicos na Europa do século XVIII viviam sérias transformações. O mercantilismo estava sendo duramente combatido pelas idéias de que a economia deveria se fazer por si só e seria regida por leis naturais. O absolutismo (direito divino dos reis e a religião do Estado) estava sendo rejeitado pela idéia de que o povo é soberano. À frente desse movimento contestador viam-se os franceses Montesquieu, Voltaire e Jean-Jacques Rousseau. A França caminhava para as grandes conturbações de massa.

Vivendo a marcante situação e empolgados pelas possíveis e eloqüentes transformações, os pensadores racionalistas da época afirmariam que havia chegado o "Século das Luzes". O iluminismo, pujante movimento intelectual, sobressairia em solo francês, dando continuidade ao racionalismo de Descartes do século anterior. Os temas básicos em discussão seriam a liberdade, o progresso e o homem. Porém, no "Século da Luzes" havia carência de luz divina. A atmosfera era de alta excitação, preparando o povo não só para o embate corporal, mas igualmente para mais tarde receber o derramamento luminoso da Codificação.

No âmbito da economia eclode a Revolução Industrial, fenômeno inicialmente restrito à Inglaterra, onde ocorreria a mecanização da indústria. O processo toma corpo e promove transformações também na agricultura, no transporte, nos bancos, no comércio e nas comunicações. Surgia o capitalismo, dividindo pela primeira vez a sociedade em burguesia e proletariado. A primeira amealhando cada vez mais riquezas materiais, a segunda aguardando o "milagre" da multiplicação dos pães. Acima deles, a nobreza monárquica e sua imobilidade para soluções sociais e, abaixo dela, a aristocracia, com toda a sua empáfia.

As diferenças sociais se acentuariam diretamente proporcional ao rápido crescimento demográfico, ao êxodo rural e a uma produção agrícola de subsistência. Como as imagens sombrias de um Rembrant, fundidas ao realismo de um Michelangelo, o quadro social estava pintado. Novas idéias, população crescente, opressão e fome. O Antigo Regime estava a um passo de se tornar imagens do passado. Havia total carência do cristianismo redivivo.

A insensível aristocracia persistia em manter e ampliar seus privilégios. A monarquia absolutista, indiferente e bloqueada pela aristocracia, não conseguiria promover mudanças benéficas para o povo. Estava assim criado todo o cenário para as revoluções liberais. Como rastilho de pólvora em solo carente do verdadeiro Evangelho exemplificado pelo Cristo, as hostilidades aumentariam. E como toda mensagem do cristianismo, que poderia arrefecer os ânimos e reconduzir a sociedade a um progresso verdadeiramente moral-intelectual, já se encontrava deturpada pela religião oficial da época, nada mais restava aos incautos a não ser a violência, considerada a época como regeneradora.

De todas as revoluções liberais do século XVIII, a Revolução Francesa (1789-1815) passaria a ser a Revolução das Revoluções. Tornar-se-ia o marco divisório da História, deixaria de ser apenas francesa para ser da Europa Ocidental e das Américas. Viria a ser considerada a Revolução do Mundo. O lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade ecoaria. Todavia, o ser humano ainda permanecia parceiro da soberba, fruto da cristalização espiritual, favorecida pelos atalhos doutrinários que o cristianismo já assumira 150 anos após Jesus ter deixado a Terra, e que vinha sendo pregado através das doutrinas católica e protestante. Em função dessa deturpação religiosa, a população há muito esquecera que amar ao próximo como a si mesmo deveria estar sintetizado no vértice Fraternidade do lema revolucionário francês. O horror sanguinolento de uma revolução desnorteada faria as suas vítimas. A França nunca mais seria a mesma, o mundo nunca mais seria o mesmo. As conquistas materiais e intelectuais seriam extraordinárias mas, para aqueles que estavam à frente de todo o processo, o preço seria altíssimo. Somente o engajamento, mais tarde, em uma nova revolução, porém agora de cunho espiritual, seria capaz de promover os reparos perispiríticos e mentais dos líderes revolucionários. E assim aconteceria, como narra a História pós codificação da doutrina dos espíritos. O mundo avançava; afinal; o Universo está em permanente movimento. Mais uma vez o Alto aproveitaria as situações criadas pelos descaminhos dos seres humanos e aguardaria o momento certo para a necessária ampliação da revelação.

Ao final da Revolução Francesa, os alicerces materiais e espirituais do mundo resultaram abalados e a França bastante estremecida. Agora, o campo mental estaria fértil para as "novas" idéias cristãs.

A Igreja, que fora perseguida implacavelmente pelos anticlericais, recompunha suas batinas e paramentos. Os turíbulos voltariam a espalhar incenso nos templos de pedra. O poder do clero permaneceria ainda forte, mas arrefecido, criando condições indispensáveis para os missionários da Terceira Revelação. Faltava pouco para a extraordinária e verdadeira revolução ser retomada, retornando-se ao caminho do cristianismo puro e ampliado de novos conhecimentos. O missionário para a sua codificação já se encontrava reencarnado. Hippolyte-Léon Denizard Rival, cidadão de Lyon, França, já contava com seus onze anos ao término histórico da Revolução Francesa, em 1815. A codificação da doutrina espírita, o cristianismo redivivo, estaria por ser lançado ao mundo, através da monumental obra O Livro dos Espíritos.


PARTE II

As revoluções científica, industrial e liberais tiveram à sua frente figuras eminentes, possuidoras de consideráveis conquistas intelectuais. Até o momento, a História registra que não se tratava de personalidades voltadas para o mal, bem como também não passaram para a História da humanidade como bondosas, excluindo evidentemente alguns comportamentos bestiais daqueles que estiveram à frente das revoluções liberais. Mesmo assim, em princípio, estes também não ficaram marcados como figuras maléficas; salvo se eu estiver com informações desatualizadas. O fato é que a verdadeira revolução, a Revolução Espiritual, deveria ser conduzida por aqueles que já houvessem conquistado o mínimo de capacidade intelecto-moral necessária e, melhor ainda, se tivessem guardado em seu íntimo o registro eloqüente da liberdade de consciência. Sendo assim, alguns espíritos que transitaram pelas revoluções humanas anteriores, bem como por outras ainda mais remotas, também seriam passíveis de serem convocados à regeneração através dos trabalhos programados para a grande Revolução. Aliás, esse chamado foi revelado em 1938, na obra Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de Humberto de Campos, psicografada por Francisco Cândido Xavier. Ali é descrito o encontro no plano espiritual daqueles que participaram da Revolução Francesa e outros que estiveram engajados em acontecimentos anteriores, para serem agora participantes da codificação da doutrina espírita, quer imediatamente, quer posteriormente, auxiliando na sua sedimentação.

Em 3 de outubro de 1804, Hippolyte-Léon Denizard Rivail reencarna em Lyon, França. Logo ruma para Paris. Em 1824, com apenas 20 anos, edita sua primeira obra didática: Curso Prático e Teórico de Aritmética. Em 1830 apresenta em alemão e francês uma versão de Os Três Primeiros Livros de Telêmaco, trabalho importantíssimo. Seu último lançamento antes de se entregar ao espiritismo foi em 1847, o Tratado de Aritmética. No total lançou 21 publicações didáticas. Como pedagogo e educador se torna colaborador de Johan Heinrich Pestallozi. Bacharel em ciências e letras, conhecia alemão, inglês, italiano, espanhol, holandês, grego e latim. Lecionou latim, astronomia e matemática.

Certamente o dia-a-dia do professor Rivail era dos mais ativos. Lecionar, escrever obras didáticas e traduzir outras importantes consumia-lhe o tempo integral. Porém, o ano de 1856 mudaria de forma radical a vida desse homem que fora criado no catolicismo, depois sofrera influência protestante e que, devido à sua formação profissional, era cético quanto aos fenômenos impropriamente rotulados de sobrenaturais.

Paris em clima primaveril vivia também a estação das mesas girantes. Uma parcela da sociedade da época estava em frenesi e provavelmente os cafés acomodavam o elegante burburinho dos crédulos e céticos, inteligentes ou obscuros intelectualmente. As reuniões sociais também possuíam agora um encontro marcado com o sobrenatural. Algumas famílias recebiam os seus convidados que, em concentração e ao redor da mesa de jantar ou de estar, se maravilhavam e se divertiam com o inexplicável ou com possíveis e limitadas explicações que o conhecimento de meados do século XIX permitiam. As mesas giravam, subiam, desciam e davam pancadas sem a intervenção humana!

O professor Rivail, tomando ciência das reuniões, refutou as informações, considerando-as fruto de histeria ou embustes bem aplicados. Entretanto, quando soube que as mesas respondiam, através de pancadas, a perguntas formuladas, o bom senso e a lógica aguçam a curiosidade sadia e legítima desse espírito altamente esclarecido. Afinal, matéria inerte de forma alguma poderia se movimentar por si só, muito menos concatenar respostas a alguma questão levantada.

Mais tarde, já freqüentando as sessões desse tipo na casa dos Baudin, o professor Rivail, então convencido da imortalidade e da interferência dos espíritos no mundo dos encarnados, recebe no dia 25 de março de 1856 a revelação de que seria permanentemente ajudado e assistido por seu guia espiritual, denominado ‘A Verdade’, na tarefa missionária de que ele seria incumbido doravante. Já o seu espírito protetor, que se identificou como Z... (ou Zéfiro) foi quem lhe deu a informação de que haviam vivido juntos nas Gálias, ao tempo de Júlio César, quando se chamava Allan Kardec.

A codificação das perguntas e respostas formuladas aos espíritos resultaria na materialização da doutrina dos espíritos, que nada mais seria que o cristianismo redivivo. Enfim, o Consolador prometido há quase dois mil anos por Jesus estaria ao alcance de todos.

Na reunião do dia 17 de junho do mesmo ano, o espírito "A Verdade" manifesta o desejo de que, uma vez a obra concluída, ela deveria passar por uma revisão, para ser abreviada ou ampliada em pontos determinados. A obra seria uma introdução, um levantar do véu, para que mais adiante, e paulatinamente, outros conhecimentos fossem acrescentados.

As comunicações não só se davam na casa dos Baudin, mas também na residência dos Roustan, através da médium Ruth Celine Japhet. Outras médiuns também participariam, mais tarde, dos trabalhos reveladores, como por exemplo a menina Caroline, de 12 anos, Julie Baudin, de 14, Aline Carlotti e Ermance Dufaux. Ao todo, mais ou menos, dez médiuns, em sua fase de adolescência, colaborariam. E, mesmo assim, o cioso Rivail, quando não satisfeito com as minuciosas revisões, indagaria os espíritos através de outros médiuns que estivessem à sua disposição. Meticuloso, os apontamentos foram comparados, fundidos e desdobrados. Uma coordenação e classificação tomaria corpo e as correções derradeiras e necessárias possivelmente seriam executadas no silêncio de sua alma.

Em 18 de abril de 1857, a 1ª edição da codificação das revelações é semeada em Paris para florescer no mundo, assinada por espíritos da envergadura de O Espírito da Verdade, João Evangelista, Agostinho, Vicente de Paulo, "são" Luís, Sócrates, Platão, Fénelon, Franklin, Swedenborg e outros mais não identificados. O cristianismo retornava em sua essência. Agora, as entrelinhas das parábolas de Jesus seriam melhor compreendidas e o mundo dos espíritos não mais seria sobrenatural.

Concomitantemente, a explicação quanto à queda dos espíritos – tendo como conseqüência a primeira encarnação humana –, a natureza fluídica do corpo de Jesus e as explicações para os chamados "milagres" estariam ocorrendo paralelamente através da mediunidade da sra. Emilie Collingon, sob a supervisão do brilhantes advogado Jean-Baptiste Roustaing, na cidade de Bordeaux. As duas revelações se completariam, sendo que a segunda, no bojo dos três volumes de Os Quatro Evangelhos, não estaria – como não poderia estar – em nenhum ponto em contradição com a primeira, como seria dito, mais tarde, por Allan Kardec, na Revue Spirite de junho de 1866, pp. 188 a 190.

A 1ª edição da codificação da doutrina dos espíritos, O Livro dos Espíritos, tinha o tipo gráfico formato grande, os assuntos foram distribuídos em duas colunas e a impressão feita in-8º. Tipograficamente, in-8º é a designação utilizada para a impressão em um determinado tamanho de folha, de tal modo que, uma vez o texto impresso, a folha será dobrada em quatro e os textos aparecerão frente-verso em oito páginas. Assim realizado, um total de 501 perguntas com suas respostas preencheram 176 páginas, numa ordenação em três partes. A doutrina dos espíritos, propriamente dita, ocuparia 10 capítulos, as leis morais ocupariam 11 capítulos, e 3 capítulos dissertariam sobre as esperanças e consolações para os espíritos encarnados. Havia, no final da obra, um índice alfabético de cinco páginas das matérias abordadas. Nas edições posteriores esse índice foi suprimido. Em 18 de abril de 1857 a 1ª edição de O Livro dos Espíritos era distribuída aos parisienses, ganhando o mundo mais tarde. Foi ela editada por E. Dentu, Libraire – Palais Royal, Galerie d’Orléans, 13. Em março de 1860 apareceu a 2ª e definitiva edição, completamente refundida e consideravelmente aumentada. As 501 questões se transformaram em 1019 (no original francês). O lançamento foi da Didier et Cie., Libraires-Éditeurs – 33, quai des Augustins – Ledoyan, Libraire, Galerie d’Orleáns, 31 – Au Palais Royal. A 1ª tradução para o português foi feita em 1875, por Fortúnio, pseudônimo do pioneiro Joaquim Carlos Travassos. Seguiram-se sucessivas outras, pela Federação Espírita Brasileira e, depois, por outras editoras. Vale notar que a melhor tradução é inquestionavelmente a de Guillon Ribeiro que, por ser impecável, é reeditada até os dias de hoje com o selo da Casa-Máter do Espiritismo. Os cuidados vernaculares de Guillon Ribeiro chegaram a ser elogiados por Rui Barbosa em discurso na tribuna do Senado Federal.

A tiragem daquela 1ª edição, bem como das subseqüentes, não são de conhecimento público, apesar de muitos esforços já terem sido empregados para apuração desse dado. O dia preciso do lançamento da 2ª edição também está envolvido por algumas controvérsias. Canuto de Abreu, em função de algumas pesquisas em documentos da época dos editores e do próprio Allan Kardec, considera a data de 18 de março de 1860. Porém, o dia 18 caiu em um domingo, o que tornaria improvável qualquer atividade daquele tipo. Assim, talvez nunca venhamos a saber qual foi a tiragem da 1ª edição e das subseqüentes, e também a data precisa do lançamento da 2ª edição. Lamentável para a documentação histórica; maravilhoso para manter viva a tenacidade dde quantos desejam estudar a história da doutrina dos espíritos.

No epílogo da 1ª edição há a transcrição da mensagem do espírito "A Verdade", na qual ele expõe o caráter introdutório desta edição. Chama a atenção para o fato de que determinadas partes dos ensinamentos espíritas seriam dados mais tarde e gradualmente, em função da prudente necessidade de se deixar primeiro que uma opinião pública estivesse formada.

Provavelmente inspirado nessa mensagem, Kardec teria desistido de lançar uma 2ª parte de O Livro dos Espíritos, empenhando-se então em reorganizar a 1ª edição com os ensinamentos adicionais, consentidos pelo Alto, para enfim lançar uma nova edição. A edição de março de 1860 passa a ter em seu arcabouço quatro partes, nas quais se encerram a continuidade do desvendamento do enigma da vida. Os seus títulos são obras-primas do intelecto kardequiano, tais como: "Das Causas Primárias", uma abordagem sobre o Criador e a criação; "Do Mundo Espírita ou Mundo dos Espíritos", desmistificando o pós-mortem e lançando luz no caminho de soerguimento da humanidade; "Das Leis Morais", restabelecendo os verdadeiros conceitos revolucionários de liberdade, igualdade e fraternidade; e, finalmente, "Das Esperanças e Consolações", em que temos revelado o processo da misericórdia divina.

O Consolador prometido fez-se presente. Havendo o desejo sincero de entender o que somos, donde viemos, para onde vamos, a queda dos espíritos, a natureza fluídica de Jesus, o mundo espiritual que existe sem a necessidade da coexistência do material, O Livro dos Espíritos é porto seguro. Sempre exigindo de todos a melhor atenção. As primeiras leituras serão reveladoras; com persistência, as entrelinhas apaziguarão as mentes ávidas por entender as questões acima. Vale lembrar a tempo que toda pergunta de ordem genérica levantada por Kardec ocasionava uma resposta de igual característica. O estudo sistemático (e não sistematizado) é necessário; a sua aplicação, indispensável. De que adiantaria sabermos que a obra possui 1019 questões, quais são as que estão subdivididas em itens, qual a maior, qual a menor, qual a resposta mais longa, qual a mais curta, verbalizarmos rapidamente o número da questão ou até mesmo em que página ela se encontra? Curiosidades e memória afiada não despertam a consciência. Reconheceremos o verdadeiro espírita pelos seus atos. E quando tivermos a oportunidade de encontrar alguém com conduta exemplar, conhecimento apurado e memória extraordinária, agradeçamos o momento salutar de permutarmos experiências, pois aqueles que se encontram à frente em moral dão sem nada quererem receber, e recebem de bom grado o máximo que possamos dar. Repetir textual e mecanicamente os parágrafos, os números das questões, as páginas - isso a história do protestantismo já nos mostrou para onde não devemos ir.

O Criador, através de Jesus, designa para a metade do século XIX o descerrar do pano sobre as verdades eternas. Kardec codifica a doutrina dos espíritos; Roustaing coordena a obra Os Quatro Evangelhos; Denis desdobra a filosofia espírita; Delanne abre a estrada científica; Flammarion descortina as amplidões celestes. Um novo tempo se fazia presente com a continuidade dos ensinamentos crísticos.

O século XX exigiria o seu lugar temporal e, para aqueles que viviam o XIX, todo o amanhã era conjectura. Todavia, o século XX seria o século dos grandes acontecimentos de repercussão mundial. Muitos nomes entrariam para a História por amor ao próximo, e tantos outros por dizimarem milhões de criaturas humanas. Nada mais aconteceria em ritmo chopiniano. Os extremos aconteceriam de tal ordem e em todos os campos que marcariam a história do planeta. Kardec e todos os outros nobres espíritos assistiriam do mundo espiritual ao início da concretização profética do espírito "A Verdade". Quando os missionários da Boa-Nova encontravam-se encarnados, não deram conta, no princípio, da magnitude que a Revelação alcançaria e do quanto a humanidade dos séculos seguintes necessitariam dela. Do mundo dos espíritos viriam o desenrolar do século XX: do trem a vapor à Apollo 11, das dolorosas e temidas cirurgias aos transplantes indolores, da luz a gás à energia nuclear, do telégrafo ao satélite, do 14 Bis ao Concorde, das epidemias viróticas à erradicação da varíola, do fuzil à bomba atômica, das guerras irracionais à irracionalidade total da II Grande Guerra, do totalitarismo à democracia, do macrocosmo ao microcosmo, da abundância de alimentos aos 800 milhões de esfomeados, da geração espontânea ao big-bang, da certeza do amanhã à relatividade de Einstein, da população de 1 bilhão aos 6 bilhões, do 1 milhão e meio de óbitos nas guerras aos 188 milhões. Enfim, o século XX foi apenas isso e muito mais.

A metade do século XIX teve reservado o surgimento de O Livro dos Espíritos, cujo berço foi a relativa calmaria mundial. O mundo do porvir teria mais tarde sede espiritual e todos poderiam se saciar na doutrina dos espíritos.

O ser humano permanece em contínua evolução do conhecimento. Todavia, o amor ao próximo e o sentimento de perdão são indispensáveis ao progresso. A trilha da redenção está aberta nas páginas de O Livro dos Espíritos e de todas as outras obras complementares da Revelação. São matéria-prima na construção das asas da ascensão. E, uma vez verdadeiramente estruturadas, não estaremos à mercê de nós mesmos, evitando de sermos pastiche de Ícaro. Assim, a última questão de O Livro dos Espíritos será o hoje.

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