Um
livro, por si só, é capaz de trazer
em seu conteúdo idéias e conceitos que podem atiçar as massas,
dependendo do local e época em que é
lançado. Contudo, um impresso que se destina a reconduzir
a humanidade aos trilhos do cristianismo puro, clarificar
ensinamentos distribuídos por Jesus e deixar novos
conhecimentos, trazendo a libertação filosófico-religiosa,
tem que ser o Livro. Sendo o livro, é necessário
que o ambiente no qual ele será depositado a fim
de frutificar venha a ser preparado de acordo com o potencial
do seu florescer.
Duzentos anos antes da Codificação da doutrina
espírita, exposta em
O Livro dos Espíritos,
por Allan Kardec, já se iniciara as profundas mudanças
no pensamento humano sobre as questões do Mundo e
o Criador. Abriam-se assim as portas para novas perspectivas
do conhecimento, preparando o terreno para que, mais tarde,
alguém revestido de bom senso e raciocínio
lógico pudesse perscrutar e indagar a existência
do mundo dos espíritos, resgatando para o século
XIX, e daí por diante, o conceito do espiritocentrismo.
Assim sendo, o mundo dos encarnados nunca mais seria o mesmo.
As consciências já tão cansadas das
proibições, claustros físicos e mentais
e hipocrisias da teologia católica, entrariam em
contato com o Consolador prometido há quase dois
mil anos por Jesus. A Terceira Revelação estaria
por se fazer presente através dos esforços
de Allan Kardec, na obra
O Livro dos Espíritos.
A história do conhecimento humano que precede O Livro dos Espíritos revela o quanto o Alto investiu
nos espíritos encarnados, considerando os atos nobres
e também os beligerantes, para que o cenário
fosse perfeito a fim de que a humanidade pudesse alcançar
a sabedoria e o amor, asas imprescindíveis capazes
de reconduzir os espíritos caídos ao estado
purificado.
O século XVII contou com a presença de vários
personagens que abalariam o velho mundo aristotélico.
Francis Bancon (1561-1656), René Descartes (1596-1650)
e Isaac Newton (1642-1717) são daqueles que mais
se destacariam. Através de seus pensamentos haveria
a ruptura da concepção secular da ciência
subordinada e hierarquizada da teologia católica,
amparada nos conceitos de Aristóteles.
Bacon, filósofo inglês, defende o valor das
experiências de laboratório e o método
indutivo, pelo qual o conhecimento seria adquirido através
da observação de muitos dados para se alcançar
uma verdade universal.
Descartes, físico, matemático e filósofo
francês, coloca em xeque todas as opiniões
tradicionais e até então aceitas. Para ele,
tudo seria considerado duvidoso, a não ser o "penso,
logo existo". Uma vez adotando essa linha de raciocínio
e, para não se ver influenciado pelo mundo externo
em suas conclusões, adota o método matemático
da dedução pura. Tal metodologia consistia
em iniciar o raciocínio a partir de verdades ou axiomas
simples e evidentes por si mesmos, como por exemplo os da
geometria. O filósofo francês defendia que,
através dessa conduta de pensamento, se chegaria
a conclusões específicas. A tese de Descartes
propunha aceitar somente aquilo que a razão pudesse
compreender e finalmente fosse demonstrado.
Newton, físico, matemático e filósofo
inglês, inicia seus estudos a partir dos conceitos
legados por Galileu e Kepler. Conseqüentemente, as
concepções medievais de um Universo guiado
por milagres e pelo sobrenatural seriam paulatinamente postas
de lado. Através da matemática, Newton demonstra
que as leis físicas aplicáveis à Terra
também se aplicariam ao Universo. Com sua teoria
gravitacional, o seu conceito de massa, força, inércia,
movimento, tempo e estudos sobre a luz, Newton se tornaria
o arquétipo da física moderna, erguendo a
plataforma para que mais tarde a física quântica
se desenvolvesse.
Através, principalmente, desses visionários
a Revolução Científica do século
XVII é feita, rompendo com as concepções
aristotélicas, tão defendidas pela Igreja.
O cosmo hermético e hierarquizado seria substituído
pelo Universo aberto e infinito que, por conseguinte, seria
regido por suas próprias leis. Enfim, o Universo
estaria em movimento, e tudo que se encontrasse em movimento
seria sinônimo de progresso. Assim sendo, o passo
seguinte da humanidade seria inevitável: a aceitação
de um Universo em progresso contínuo e regido por
suas leis, promovendo uma nova conscientização
no ser humano, que também estaria em eterna mutação,
progredindo, avançando. Grandes conquistas materiais,
para um mundo material, emergiriam. Enfim, "todo"
o conhecimento sufocado por séculos mediante o terror
psicológico e a punição física
que o catolicismo impusera não mais poderia ser contido.
O êmbolo do progresso injetaria novos conhecimentos,
a Europa sofreria profundas transformações
no campo econômico, político e ideológico.
A terraplenagem existencial estava em curso para a vinda
do Consolador prometido. Contudo, o mundo ainda teria que
sofrer abalos mais sérios para o devido preparo nas
esferas mentais da sociedade encarnada. A ruptura do deturpado
pensamento religioso para alcançar o novo teria que
ser também extraordinária, como foi a Revolução
Científica. O ser humano, entretanto, mais uma vez
não alçaria vôo com as asas da evolução
intelectual e moral. O século XVII passaria com suas
conquistas, mas o Consolador não poderia ainda se
fazer presente. Novos acontecimentos, pois, estariam por
vir. O terreno fértil das almas reencarnadas já
havia sido rasgado para a semeadura da libertação;
seria agora semeado com as verdades inabaláveis do
autêntico cristianismo, que se materializaria através
do Consolador.
O século XVIII foi o divisor de águas entre
o "velho" mundo e o "novo" mundo. A
humanidade, estimulada pelas novas concepções
da Revolução Científica do século
XVII, começaria a transpirar contestação.
Mas... já estaria preparada para o descortinar do
Grande Conhecimento, que responderia às sempre e
atualíssimas questões: Que sou? Donde vim?
Para onde vou? Infelizmente, não. A humanidade, como
a História nos revela, caminha lentamente. O Altíssimo
aguardaria mais algumas décadas para o amadurecimento
dos espíritos em queda e, aí sim, teríamos
a continuidade da retirada do véu da ignorância
transcendente.
Os movimentos políticos e econômicos na Europa
do século XVIII viviam sérias transformações.
O mercantilismo estava sendo duramente combatido pelas idéias
de que a economia deveria se fazer por si só e seria
regida por leis naturais. O absolutismo (direito divino
dos reis e a religião do Estado) estava sendo rejeitado
pela idéia de que o povo é soberano. À
frente desse movimento contestador viam-se os franceses
Montesquieu, Voltaire e Jean-Jacques Rousseau. A França
caminhava para as grandes conturbações de
massa.
Vivendo a marcante situação e empolgados
pelas possíveis e eloqüentes transformações,
os pensadores racionalistas da época afirmariam que
havia chegado o "Século das Luzes". O iluminismo,
pujante movimento intelectual, sobressairia em solo francês,
dando continuidade ao racionalismo de Descartes do século
anterior. Os temas básicos em discussão seriam
a liberdade, o progresso e o homem. Porém, no "Século
da Luzes" havia carência de luz divina. A atmosfera
era de alta excitação, preparando o povo não
só para o embate corporal, mas igualmente para mais
tarde receber o derramamento luminoso da Codificação.
No âmbito da economia eclode a Revolução
Industrial, fenômeno inicialmente restrito à
Inglaterra, onde ocorreria a mecanização da
indústria. O processo toma corpo e promove transformações
também na agricultura, no transporte, nos bancos,
no comércio e nas comunicações. Surgia
o capitalismo, dividindo pela primeira vez a sociedade em
burguesia e proletariado. A primeira amealhando cada vez
mais riquezas materiais, a segunda aguardando o "milagre"
da multiplicação dos pães. Acima deles,
a nobreza monárquica e sua imobilidade para soluções
sociais e, abaixo dela, a aristocracia, com toda a sua empáfia.
As diferenças sociais se acentuariam diretamente
proporcional ao rápido crescimento demográfico,
ao êxodo rural e a uma produção agrícola
de subsistência. Como as imagens sombrias de um Rembrant,
fundidas ao realismo de um Michelangelo, o quadro social
estava pintado. Novas idéias, população
crescente, opressão e fome. O Antigo Regime estava
a um passo de se tornar imagens do passado. Havia total
carência do cristianismo redivivo.
A insensível aristocracia persistia em manter e
ampliar seus privilégios. A monarquia absolutista,
indiferente e bloqueada pela aristocracia, não conseguiria
promover mudanças benéficas para o povo. Estava
assim criado todo o cenário para as revoluções
liberais. Como rastilho de pólvora em solo carente
do verdadeiro Evangelho exemplificado pelo Cristo, as hostilidades
aumentariam. E como toda mensagem do cristianismo, que poderia
arrefecer os ânimos e reconduzir a sociedade a um
progresso verdadeiramente moral-intelectual, já se
encontrava deturpada pela religião oficial da época,
nada mais restava aos incautos a não ser a violência,
considerada a época como regeneradora.
De todas as revoluções liberais do século
XVIII, a Revolução Francesa (1789-1815) passaria
a ser a Revolução das Revoluções.
Tornar-se-ia o marco divisório da História,
deixaria de ser apenas francesa para ser da Europa Ocidental
e das Américas. Viria a ser considerada a Revolução
do Mundo. O lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade ecoaria.
Todavia, o ser humano ainda permanecia parceiro da soberba,
fruto da cristalização espiritual, favorecida
pelos atalhos doutrinários que o cristianismo já
assumira 150 anos após Jesus ter deixado a Terra,
e que vinha sendo pregado através das doutrinas católica
e protestante. Em função dessa deturpação
religiosa, a população há muito esquecera
que amar ao próximo como a si mesmo deveria estar
sintetizado no vértice Fraternidade do lema revolucionário
francês. O horror sanguinolento de uma revolução
desnorteada faria as suas vítimas. A França
nunca mais seria a mesma, o mundo nunca mais seria o mesmo.
As conquistas materiais e intelectuais seriam extraordinárias
mas, para aqueles que estavam à frente de todo o
processo, o preço seria altíssimo. Somente
o engajamento, mais tarde, em uma nova revolução,
porém agora de cunho espiritual, seria capaz de promover
os reparos perispiríticos e mentais dos líderes
revolucionários. E assim aconteceria, como narra
a História pós codificação da
doutrina dos espíritos. O mundo avançava;
afinal; o Universo está em permanente movimento.
Mais uma vez o Alto aproveitaria as situações
criadas pelos descaminhos dos seres humanos e aguardaria
o momento certo para a necessária ampliação
da revelação.
Ao final da Revolução Francesa, os alicerces
materiais e espirituais do mundo resultaram abalados e a
França bastante estremecida. Agora, o campo mental
estaria fértil para as "novas" idéias
cristãs.
A Igreja, que fora perseguida implacavelmente pelos anticlericais,
recompunha suas batinas e paramentos. Os turíbulos
voltariam a espalhar incenso nos templos de pedra. O poder
do clero permaneceria ainda forte, mas arrefecido, criando
condições indispensáveis para os missionários
da Terceira Revelação. Faltava pouco para
a extraordinária e verdadeira revolução
ser retomada, retornando-se ao caminho do cristianismo puro
e ampliado de novos conhecimentos. O missionário
para a sua codificação já se encontrava
reencarnado. Hippolyte-Léon Denizard Rival, cidadão
de Lyon, França, já contava com seus onze
anos ao término histórico da Revolução
Francesa, em 1815. A codificação da doutrina
espírita, o cristianismo redivivo, estaria por ser
lançado ao mundo, através da monumental obra
O Livro dos Espíritos.
PARTE II
As revoluções científica, industrial
e liberais tiveram à sua frente figuras eminentes,
possuidoras de consideráveis conquistas intelectuais.
Até o momento, a História registra que não
se tratava de personalidades voltadas para o mal, bem como
também não passaram para a História
da humanidade como bondosas, excluindo evidentemente alguns
comportamentos bestiais daqueles que estiveram à
frente das revoluções liberais. Mesmo assim,
em princípio, estes também não ficaram
marcados como figuras maléficas; salvo se eu estiver
com informações desatualizadas. O fato é
que a verdadeira revolução, a Revolução
Espiritual, deveria ser conduzida por aqueles que já
houvessem conquistado o mínimo de capacidade intelecto-moral
necessária e, melhor ainda, se tivessem guardado
em seu íntimo o registro eloqüente da liberdade
de consciência. Sendo assim, alguns espíritos
que transitaram pelas revoluções humanas anteriores,
bem como por outras ainda mais remotas, também seriam
passíveis de serem convocados à regeneração
através dos trabalhos programados para a grande Revolução.
Aliás, esse chamado foi revelado em 1938, na obra
Brasil, Coração do Mundo, Pátria do
Evangelho, de Humberto de Campos, psicografada por Francisco
Cândido Xavier. Ali é descrito o encontro no
plano espiritual daqueles que participaram da Revolução
Francesa e outros que estiveram engajados em acontecimentos
anteriores, para serem agora participantes da codificação
da doutrina espírita, quer imediatamente, quer posteriormente,
auxiliando na sua sedimentação.
Em 3 de outubro de 1804, Hippolyte-Léon Denizard
Rivail reencarna em Lyon, França. Logo ruma para
Paris. Em 1824, com apenas 20 anos, edita sua primeira obra
didática: Curso Prático e Teórico de
Aritmética. Em 1830 apresenta em alemão e
francês uma versão de Os Três Primeiros
Livros de Telêmaco, trabalho importantíssimo.
Seu último lançamento antes de se entregar
ao espiritismo foi em 1847, o Tratado de Aritmética.
No total lançou 21 publicações didáticas.
Como pedagogo e educador se torna colaborador de Johan Heinrich
Pestallozi. Bacharel em ciências e letras, conhecia
alemão, inglês, italiano, espanhol, holandês,
grego e latim. Lecionou latim, astronomia e matemática.
Certamente o dia-a-dia do professor Rivail era dos mais
ativos. Lecionar, escrever obras didáticas e traduzir
outras importantes consumia-lhe o tempo integral. Porém,
o ano de 1856 mudaria de forma radical a vida desse homem
que fora criado no catolicismo, depois sofrera influência
protestante e que, devido à sua formação
profissional, era cético quanto aos fenômenos
impropriamente rotulados de sobrenaturais.
Paris em clima primaveril vivia também a estação
das mesas girantes. Uma parcela da sociedade da época
estava em frenesi e provavelmente os cafés acomodavam
o elegante burburinho dos crédulos e céticos,
inteligentes ou obscuros intelectualmente. As reuniões
sociais também possuíam agora um encontro
marcado com o sobrenatural. Algumas famílias recebiam
os seus convidados que, em concentração e
ao redor da mesa de jantar ou de estar, se maravilhavam
e se divertiam com o inexplicável ou com possíveis
e limitadas explicações que o conhecimento
de meados do século XIX permitiam. As mesas giravam,
subiam, desciam e davam pancadas sem a intervenção
humana!
O professor Rivail, tomando ciência das reuniões,
refutou as informações, considerando-as fruto
de histeria ou embustes bem aplicados. Entretanto, quando
soube que as mesas respondiam, através de pancadas,
a perguntas formuladas, o bom senso e a lógica aguçam
a curiosidade sadia e legítima desse espírito
altamente esclarecido. Afinal, matéria inerte de
forma alguma poderia se movimentar por si só, muito
menos concatenar respostas a alguma questão levantada.
Mais tarde, já freqüentando as sessões
desse tipo na casa dos Baudin, o professor Rivail, então
convencido da imortalidade e da interferência dos
espíritos no mundo dos encarnados, recebe no dia
25 de março de 1856 a revelação de
que seria permanentemente ajudado e assistido por seu guia
espiritual, denominado ‘A Verdade’, na tarefa
missionária de que ele seria incumbido doravante.
Já o seu espírito protetor, que se identificou
como Z... (ou Zéfiro) foi quem lhe deu a informação
de que haviam vivido juntos nas Gálias, ao tempo
de Júlio César, quando se chamava Allan Kardec.
A codificação das perguntas e respostas formuladas
aos espíritos resultaria na materialização
da doutrina dos espíritos, que nada mais seria que
o cristianismo redivivo. Enfim, o Consolador prometido há
quase dois mil anos por Jesus estaria ao alcance de todos.
Na reunião do dia 17 de junho do mesmo ano, o espírito
"A Verdade" manifesta o desejo de que, uma vez
a obra concluída, ela deveria passar por uma revisão,
para ser abreviada ou ampliada em pontos determinados. A
obra seria uma introdução, um levantar do
véu, para que mais adiante, e paulatinamente, outros
conhecimentos fossem acrescentados.
As comunicações não só se davam
na casa dos Baudin, mas também na residência
dos Roustan, através da médium Ruth Celine
Japhet. Outras médiuns também participariam,
mais tarde, dos trabalhos reveladores, como por exemplo
a menina Caroline, de 12 anos, Julie Baudin, de 14, Aline
Carlotti e Ermance Dufaux. Ao todo, mais ou menos, dez médiuns,
em sua fase de adolescência, colaborariam. E, mesmo
assim, o cioso Rivail, quando não satisfeito com
as minuciosas revisões, indagaria os espíritos
através de outros médiuns que estivessem à
sua disposição. Meticuloso, os apontamentos
foram comparados, fundidos e desdobrados. Uma coordenação
e classificação tomaria corpo e as correções
derradeiras e necessárias possivelmente seriam executadas
no silêncio de sua alma.
Em 18 de abril de 1857, a 1ª edição
da codificação das revelações
é semeada em Paris para florescer no mundo, assinada
por espíritos da envergadura de O Espírito
da Verdade, João Evangelista, Agostinho, Vicente
de Paulo, "são" Luís, Sócrates,
Platão, Fénelon, Franklin, Swedenborg e outros
mais não identificados. O cristianismo retornava
em sua essência. Agora, as entrelinhas das parábolas
de Jesus seriam melhor compreendidas e o mundo dos espíritos
não mais seria sobrenatural.
Concomitantemente, a explicação quanto à
queda dos espíritos – tendo como conseqüência
a primeira encarnação humana –, a natureza
fluídica do corpo de Jesus e as explicações
para os chamados "milagres" estariam ocorrendo
paralelamente através da mediunidade da sra. Emilie
Collingon, sob a supervisão do brilhantes advogado
Jean-Baptiste Roustaing, na cidade de Bordeaux. As duas
revelações se completariam, sendo que a segunda,
no bojo dos três volumes de Os Quatro Evangelhos,
não estaria – como não poderia estar
– em nenhum ponto em contradição com
a primeira, como seria dito, mais tarde, por Allan Kardec,
na Revue Spirite de junho de 1866, pp. 188 a 190.
A 1ª edição da codificação
da doutrina dos espíritos, O Livro dos Espíritos,
tinha o tipo gráfico formato grande, os assuntos
foram distribuídos em duas colunas e a impressão
feita in-8º. Tipograficamente, in-8º é
a designação utilizada para a impressão
em um determinado tamanho de folha, de tal modo que, uma
vez o texto impresso, a folha será dobrada em quatro
e os textos aparecerão frente-verso em oito páginas.
Assim realizado, um total de 501 perguntas com suas respostas
preencheram 176 páginas, numa ordenação
em três partes. A doutrina dos espíritos, propriamente
dita, ocuparia 10 capítulos, as leis morais ocupariam
11 capítulos, e 3 capítulos dissertariam sobre
as esperanças e consolações para os
espíritos encarnados. Havia, no final da obra, um
índice alfabético de cinco páginas
das matérias abordadas. Nas edições
posteriores esse índice foi suprimido. Em 18 de abril
de 1857 a 1ª edição de O Livro dos
Espíritos era distribuída aos parisienses, ganhando
o mundo mais tarde. Foi ela editada por E. Dentu, Libraire
– Palais Royal, Galerie d’Orléans, 13.
Em março de 1860 apareceu a 2ª e definitiva
edição, completamente refundida e consideravelmente
aumentada. As 501 questões se transformaram em 1019
(no original francês). O lançamento foi da
Didier et Cie., Libraires-Éditeurs – 33, quai
des Augustins – Ledoyan, Libraire, Galerie d’Orleáns,
31 – Au Palais Royal. A 1ª tradução
para o português foi feita em 1875, por Fortúnio,
pseudônimo do pioneiro Joaquim Carlos Travassos. Seguiram-se
sucessivas outras, pela Federação Espírita
Brasileira e, depois, por outras editoras. Vale notar que
a melhor tradução é inquestionavelmente
a de Guillon Ribeiro que, por ser impecável, é
reeditada até os dias de hoje com o selo da Casa-Máter
do Espiritismo. Os cuidados vernaculares de Guillon Ribeiro
chegaram a ser elogiados por Rui Barbosa em discurso na
tribuna do Senado Federal.
A tiragem daquela 1ª edição, bem como
das subseqüentes, não são de conhecimento
público, apesar de muitos esforços já
terem sido empregados para apuração desse
dado. O dia preciso do lançamento da 2ª edição
também está envolvido por algumas controvérsias.
Canuto de Abreu, em função de algumas pesquisas
em documentos da época dos editores e do próprio
Allan Kardec, considera a data de 18 de março de
1860. Porém, o dia 18 caiu em um domingo, o que tornaria
improvável qualquer atividade daquele tipo. Assim,
talvez nunca venhamos a saber qual foi a tiragem da 1ª
edição e das subseqüentes, e também
a data precisa do lançamento da 2ª edição.
Lamentável para a documentação histórica;
maravilhoso para manter viva a tenacidade dde quantos desejam
estudar a história da doutrina dos espíritos.
No epílogo da 1ª edição há
a transcrição da mensagem do espírito
"A Verdade", na qual ele expõe o caráter
introdutório desta edição. Chama a
atenção para o fato de que determinadas partes
dos ensinamentos espíritas seriam dados mais tarde
e gradualmente, em função da prudente necessidade
de se deixar primeiro que uma opinião pública
estivesse formada.
Provavelmente inspirado nessa mensagem, Kardec teria desistido
de lançar uma 2ª parte de O Livro dos Espíritos,
empenhando-se então em reorganizar a 1ª edição
com os ensinamentos adicionais, consentidos pelo Alto, para
enfim lançar uma nova edição. A edição
de março de 1860 passa a ter em seu arcabouço
quatro partes, nas quais se encerram a continuidade do desvendamento
do enigma da vida. Os seus títulos são obras-primas
do intelecto kardequiano, tais como: "Das Causas Primárias",
uma abordagem sobre o Criador e a criação;
"Do Mundo Espírita ou Mundo dos Espíritos",
desmistificando o pós-mortem e lançando luz
no caminho de soerguimento da humanidade; "Das Leis
Morais", restabelecendo os verdadeiros conceitos revolucionários
de liberdade, igualdade e fraternidade; e, finalmente, "Das
Esperanças e Consolações", em
que temos revelado o processo da misericórdia divina.
O Consolador prometido fez-se presente. Havendo o desejo
sincero de entender o que somos, donde viemos, para onde
vamos, a queda dos espíritos, a natureza fluídica
de Jesus, o mundo espiritual que existe sem a necessidade
da coexistência do material, O Livro dos Espíritos
é porto seguro. Sempre exigindo de todos a melhor
atenção. As primeiras leituras serão
reveladoras; com persistência, as entrelinhas apaziguarão
as mentes ávidas por entender as questões
acima. Vale lembrar a tempo que toda pergunta de ordem genérica
levantada por Kardec ocasionava uma resposta de igual característica.
O estudo sistemático (e não sistematizado)
é necessário; a sua aplicação,
indispensável. De que adiantaria sabermos que a obra
possui 1019 questões, quais são as que estão
subdivididas em itens, qual a maior, qual a menor, qual
a resposta mais longa, qual a mais curta, verbalizarmos
rapidamente o número da questão ou até
mesmo em que página ela se encontra? Curiosidades
e memória afiada não despertam a consciência.
Reconheceremos o verdadeiro espírita pelos seus atos.
E quando tivermos a oportunidade de encontrar alguém
com conduta exemplar, conhecimento apurado e memória
extraordinária, agradeçamos o momento salutar
de permutarmos experiências, pois aqueles que se encontram
à frente em moral dão sem nada quererem receber,
e recebem de bom grado o máximo que possamos dar.
Repetir textual e mecanicamente os parágrafos, os
números das questões, as páginas -
isso a história do protestantismo já nos mostrou
para onde não devemos ir.
O Criador, através de Jesus, designa para a metade
do século XIX o descerrar do pano sobre as verdades
eternas. Kardec codifica a doutrina dos espíritos;
Roustaing coordena a obra Os Quatro Evangelhos; Denis desdobra
a filosofia espírita; Delanne abre a estrada científica;
Flammarion descortina as amplidões celestes. Um novo
tempo se fazia presente com a continuidade dos ensinamentos
crísticos.
O século XX exigiria o seu lugar temporal e, para
aqueles que viviam o XIX, todo o amanhã era conjectura.
Todavia, o século XX seria o século dos grandes
acontecimentos de repercussão mundial. Muitos nomes
entrariam para a História por amor ao próximo,
e tantos outros por dizimarem milhões de criaturas
humanas. Nada mais aconteceria em ritmo chopiniano. Os extremos
aconteceriam de tal ordem e em todos os campos que marcariam
a história do planeta. Kardec e todos os outros nobres
espíritos assistiriam do mundo espiritual ao início
da concretização profética do espírito
"A Verdade". Quando os missionários da
Boa-Nova encontravam-se encarnados, não deram conta,
no princípio, da magnitude que a Revelação
alcançaria e do quanto a humanidade dos séculos
seguintes necessitariam dela. Do mundo dos espíritos
viriam o desenrolar do século XX: do trem a vapor
à Apollo 11, das dolorosas e temidas cirurgias aos
transplantes indolores, da luz a gás à energia
nuclear, do telégrafo ao satélite, do 14 Bis
ao Concorde, das epidemias viróticas à erradicação
da varíola, do fuzil à bomba atômica,
das guerras irracionais à irracionalidade total da
II Grande Guerra, do totalitarismo à democracia,
do macrocosmo ao microcosmo, da abundância de alimentos
aos 800 milhões de esfomeados, da geração
espontânea ao big-bang, da certeza do amanhã
à relatividade de Einstein, da população
de 1 bilhão aos 6 bilhões, do 1 milhão
e meio de óbitos nas guerras aos 188 milhões.
Enfim, o século XX foi apenas isso e muito mais.
A metade do século XIX teve reservado o surgimento
de O Livro dos Espíritos, cujo berço foi a
relativa calmaria mundial. O mundo do porvir teria mais
tarde sede espiritual e todos poderiam se saciar na doutrina
dos espíritos.
O ser humano permanece em contínua evolução
do conhecimento. Todavia, o amor ao próximo e o sentimento
de perdão são indispensáveis ao progresso.
A trilha da redenção está aberta nas
páginas de O Livro dos Espíritos e de todas
as outras obras complementares da Revelação.
São matéria-prima na construção
das asas da ascensão. E, uma vez verdadeiramente
estruturadas, não estaremos à mercê
de nós mesmos, evitando de sermos pastiche de Ícaro.
Assim, a última questão de O Livro dos Espíritos
será o hoje.
TOPO